
Foi já há 21 anos que passei umas férias inesqueciveis em Itália. Com os meus amigos de sempre Carlos, João, Zé Luis e Zé. Ao rever as fotos recordo-me do comentário da Paula em 95: “Parecem dez anos mais novos”. Efectivamente.
Partimos no “velhinho” Mercedes do Porto para Ferrara, a nossa base, ao abrigo de um intercâmbio de estudantes. Depois de escala em Barcelona, com aventura na Sagrada Familia, e Nice, “na volta é que vai ser”, lá chegamos a Ferrara. O velhinho nas curvas de Rapallo começou a gastar mais óleo que gasóleo.
O alojamento era numa residência Universitária, na Via Mortara. O Carlos ficou com um quarto só para ele. Eu,o João e o Zé dormimos 3 semanas num impecável colchão de granito.
Nesse Verão de 85 decorria o Live Aid, que seguimos num cinema ao ar livre, entre uma Wunster, Straciatella e um bichiere d’aqua frisante. Descobrimos o surrealismo em De Chirico no Castelo Estense. Percorremos o Corso della Giovecca e admiramos as bicicletas.
Estávamos no século passado, era sem telemóveis nem multibanco (e claro, sem net), comunicar com as namoradas era dificil e caro, e por vezes apanhavamos com a sogra. Por isso as cartas, hoje em vias de extinção, ainda tinham a sua utilidade.
Férias low budget ( 60 contos cabeça, por um mès) condicionavam as refeições, para mais porque os enchidos pagavam-se ao etto. Lembro os “fabulosos” bifes de fiambre com tagliatelle al pommodoro.Valia-nos que a fruta era gratuita, nos pomares entre a cidade e a praia, pela noitinha. O Carlos era contra... excepto quando bebia 2 canecas.
A praia, em Comachio e Lido di Spina, era fantástica. O Adriático tinha uma água azul turquesa de temperatura apelativa. Apelativas eram também as italianas, belíssimas. Nessa altura não havia globalização pelo que a moda italiana não chegara ainda a Portugal. Daí o nosso encanto com as meninas Valentino ou Versace. O problema eram os meninos Zegna e Armani. Não davam hipótese, defendendo como autênticos Materazzis. Por isso um dia o Zé, com grande currículo no Porto, declarou: “Esta noite senão for uma é um...”. Mas foi o Carlos quem teve uma fiesta brava.
Pelo meio tivemos a visita do Nuno e do Miguel, hoje homens do Curtas de Vila do Conde, e do Rui, hoje na TAP, homem capaz de declamar Bocage uma noite inteira.
Pontos altos foram as visitas a Florença e Ravenna. E claro, as festas do L’Unitá, orgão do PCI, nas mais reconditas aldeias. Uma noite, depois de “apreendermos” uma bandeira do Partido, o Zé Luis ainda convenceu o sindaco local a ofertar-nos outra. Premonição? Talvez, de votante no CDS em 85 progrediu até ao BdE em 2004.

No regresso, escala em Veneza, onde depois de acordarmos todo o parque de campismo, instalamos um inovador sistema de alarme no bungalow : “vassoura na cabeça do Carlos”. Na gôndola o João foi abençoado por uma gaivota e o Zé Luis convenceu o Carlos que trouxe um mosaico de São Marcos, E Milano. Depois de uma corrida de llamas e um grande prémio no Monaco, montamos a tenda em Nice e Andorra, onde um almoço à base de queijo e chocolate fez com que o Zé na chegada ao Porto ficasse inapto para umas Tripas na Ribeira.

DVD : "Amici Miei" (1975) de Mario Monicelli
"Live Aid 85"
CD: " How I wish you Where Here" dos Pink Floyd
"Brothers in Arms" dos Dire Straits
"Just One Night" de Eric Clapton
"Also Sprach Zaratustra" de Richard Strauss pela Berlin Philarmonica