DVDteca - Grandes Mestres do Cinema (14)
"Les Quatre Cents Coups" (1959) de François Truffaut
François Truffaut nasceu em 1932 sem nunca ter conhecido o seu pai, sendo o apelido Truffaut herdado do padrasto. Teve uma infancia tumultuosa, da qual escapava para as salas de cinema. A sua paixão pelo cinema levou-o a fundar um cineclube. Como resultado acumulou dividas, problemas com a policia e a ruptura com os pais Anos mais tarde desertou, tendo cumprido prisão na Alemanha.
Nos anos 50 torna-se critico de cinema nos míticos Les Cahiers du cinéma. Um artigo seu "Une certaine tendance du cinéma français", publicado em 1954 precipitou uma revolução na indústria do cinema francês, o que aliado a uma talentosa e inovadora geração de novos realizadores gerou o que ficou conhecido como a “nouvelle vague” . Com Truffaut, Godard, Chabrol, Rohmer.
A sua primeira longa metragem, “Les Quatre Cent Coups” é uma obra genial, em que Truffaut vai colocar em prática tudo o que tinha antes defendido como critico de cinema e defensor de um cinema de autor, como o faz com uma sensibilidade e um tacto espantoso para quem se estreia na realização. Filme claramente autobiográfico, relatando a conturbada adolescência do seu alter ego, Antoine Doinel, personagem que será revisitada ao longo de vinte anos em vários filmes, sempre representado por Jean-Pierre Léaud. A “família feliz” que está longe de ser feliz, com um pai alienado da vida e uma mãe demasiado ambiciosa para a vida que tem, deixa o jovem Doinel quase asfixiado. Ele precisa de ser livre. Também não é na escola que o jovem vai encontrar um espaço onde se adaptar.
A escola que aqui vemos é a escola de Jean Vigo em Zero en Conduite,que Truffaut homenageia citando alguns planos do filme de Vigo. É uma escola atrasada, uma escola castradora. Truffaut vinga-se aqui claramente dos dias mais difíceis da sua infância, e ao trazer Doinel para as ruas, para os espaços abertos – longe do cubículo que é a sua casa e da lúgubre escola – dá também uma força e vitalidade ao filme, que ajuda e muito a desenvolver a tenção dramática. É pois um filme que abala por completo duas grandes instituições da sociedade francesa,a família e a escola.
O cinema, sempre o cinema, marca também a sua presença, como local de escape, como local onde o sonho e as primeiras paixões são ainda inocentes e belas, uma verdadeira poesia visual. Para isso usa uma série de travellings, de planos picados e contra-picados, e experimenta também o uso da câmara em movimento, fundamental para dar maior dinâmica à narrativa.
O abandono, o desencanto, a desilusão, o desenquadramento, são as marcas dominantes da primeira metade do filme. Ao contrário dos minutos finais, onde a esperança, a liberdade e o futuro dão uma reviravolta total ao filme. Um piscar de olhos ao cinema da época talvez, com um Truffaut critico ao sistema – educacional, mas que também podia ser o sistema da indústria cinematográfica – e só o cinema nos permite estas comparações – e um desencanto com a família, talvez aqueles de quem Truffaut esperaria mais. Mas, num rasgo de génio, Les Quatrecents Coups é mais sobre a esperança e sobre o futuro do que propriamente sobre o passado.
Num dos mais brilhantes planos finais da história do cinema, Truffaut deixa a porta aberta para o que se seguiria. Num piscar de olhos ao próprio movimento a que dá inicio, o realizador não fecha Les Quatrecents Coups, antes o deixa em aberto, para mostrar que este era só o primeiro passo. O resto estava para vir. E o resto, era a Nouvelle Vague.
Apesar do pequeno orçamento, Les Quatre Cents Coups valeu a Truffaut o prémio de melhor realizador em Cannes em 1959, outorgando-lhe o estatuto de autor. A sua obra é notável e seria exaustivo citar todos os seus grandes filmes. Recordo “Jules et Jim” (62) por muitos considerado o filme maior na obra de Truffaut, triângulo amoroso com uma espantosa Jeanne Moreau. Comédias como “Baisers volés” (68) ou “Une belle fille comme moi”(72). Thrillers como “La Mariée était en noir” , “La Siréne du Mississipi” (69) ou “La Femme d’à côté” (81), que lançou Fanny Ardant.. A notável “La Nuit Americaine” (73), filme dentro do filme, que lhe valeu o Óscar de melhor filme estrangeiro. O confessional “L’Homme qui aimait les femmes” (77), que evoca a complexa vida amorosa do realizador. O último Doinel, “L’amour em Fuite” (79) ou “Le dernier Métro” (80), uma vez mais com uma das suas paixões, Catherine Deneuve.
Truffaut foi também actor, participando em alguns dos seus filmes, destacando-se em “L’Enfant Sauvage” (70) e “La Nuit Américaine” (73). Spielberg que nutria grand admiração por Truffaut cahmou-o para participar em “Encontros Imediatos do 3º grau”(77).
Após ter realizado “Vivement dimanche!” (83) foi-lhe diagnosticado um tumor cerebral em 1983 falecendo no ano seguinte.
A obra de Truffaut e leva-nos do thriller à comédia romântica , do romance à ficção cientifica, da adolescência ao drama e ao filme de época. O fio comum que unifica esta diversidade conferindo ao todo coerência , é o profundo humanismo e o conteúdo autobiográfico dos seus filmes.
DVD: "Os Quatrocentos Golpes", na FNAC, €24,50
Também recomendo "Jules e Jim, na FNAC, €24,50, eos Packs Truffaut 1 (Amor em Fuga + Domicílio Conjugal + Beijos Roubados + Os Quatrocentos Golpes + Antoine e Colete Os putos) e 2 (Disparem sobre o Pianista + Angústia + A mulher do Lado + Finalmente Domingo!), cada um com 4 filmes do autor francês, com 4 filmes cada por €65.
PS: Uma nota para quem vir o filme e não perceber o título.A tradução para português de Les Quatre Cents Coups trinta por uma linha. Na altura um ilustre tradutor chamou-lhe os quatrocentos golpes e assim ficou.

0 Comments:
Enviar um comentário
Links to this post:
Criar uma hiperligação
<< Home