quarta-feira, agosto 30, 2006

Os LP's do meu baú (3) ""Blasé"

Os posts são como as cerejas. Ao fazer o texto sobre Godard recordei um álbum que não ouvia há muito. "Blasé" de Archie Shepp. Gravado em 1969, em Paris, no seu "exilio" europeu .

Blasé é um momento de escuridão. Um blues, mas um blues ancestral, visceral. "My Angel" abre com o blues e as harmónicas, mas o disco é logo tomado pela voz rouca do saxofone de Shepp e das cordas vocais de Jeanne Lee. "Blasé" é uma lágrima, uma ferida aberta. As notas do piano colam-se às palavras, e logo se estilhaçam. E o saxofone de Shepp canta o pesar sobre um passado sem retorno e olha orgulhosamente o futuro.

"Blasé" é um dos melhores albums de Archie Shepp, nome grande do jazz, companheiro de Cecil taylor, John Coltrane, Chet Baker, Ornette Coleman, entre tantos imortais. Para os menos "jazz addicts" recomendo que comecem por ouvir o fabuloso e mais melódico "Trouble in Mind" e se gostarem avancem para "Blasé".

Blasé (1969): Archie Shepp (sax tenor e soprano), Jeanne lee (voz), Chicago Beau et Julio Finn (harmonica), Dave Burell (piano), Philly Joe Jones (bateria) Malachi Favors (contrabaixo) et Lester Bowie (trompete), os dois últimos do Art Ensemble of Chicago.

CD: Na FNAC €17.50 (mas está esgotado), na amazon.uk €15.00
LP: o meu comprei-o na Tubitek, em 1981-2;no eBay encontra-se por €10.00
mp3: no iTunes €9.99

DVDteca - Grandes Mestres do Cinema (15)


"Á Bout de Souffle" de Jean Luc Godard

O final dos anos 50 foi marcante no cinema francês, pelo lançamento de três filmes que marcaram a “Nouvelle Vague”. “Les 400 coups” de Truffaut, “Le Beau Serge” de Chabrol e “A Bout de Souffle” de Jean Luc Godard. Esses filmes a preto e branco mudaram a face do cinema e influenciaram inúmeros jovens que hoje são grandes realizadores como Spielberg ou Scorcese.

“A Bout de Souffle”, realizado por Godard sobre uma ideia original de Truffaut e contando com a supervisão de Chabrol é , quase 50 anos passados o filme emblemático da “Nouvelle Vague”, sendo que essa vaga segue o seu rumo, forte, mantendo o filme todo o seu brilho, como é próprio de qualquer jóia preciosa.

Marcado por um par electrisante, como o cinema por vezes nos oferece. Já falamos de Bogart e Bacall em “The Big Sleep”. Aqui temos um Belmondo beata no canto da boca, chapéu à Bogart de esguelha, o seu ar trocista, estilo blasé, o beiço caído, as caretas, o dedo que passa sobre os lábios ( como Bogart uma vez mais). E a jovem americana Jean Seberg, na frescura dos seus vinte anos, cabelo curto, t-shirt justa (" Pourquoi ne portes-tu jamais de soutien-gorge ?" pergunta-lhe Michel) calças à pirata ou vestido pelissado às riscas. O malandro e a sereia. Únicos.

No seu primeiro filme, Godard queria fazer um filme negro, à americana. Faz citações, recria cenas, repete bandas sonoras, mostra cartazes, como cinéfilo que era. E todavia... tudo reinventou, criando um novo género: o “Godard”. Ousado, provocador, filma como respira, diverte-se divertindo ( como na cena em que o protagonista recusa comprar os Cahiers du Cinema) , de ruptura em ruptura, persegue o fugaz, o efémero, o real. A liberdade e a irreverência. E o final por si só dá-lhe o estatuto de filme de culto.

O filme conta a história de Michel (Belmondo) que rouba um carro em Marselha e ruma a Paris, matando um polícia no trajecto. Encontra Patricia (Seberg) aspirante a jornalista que vende o Herald Tribune nos Champs-Elysées. O romance é intenso, mas Patricia descobre que Michel é procurado pela polícia. Amor impossível, então. À beira do abismo. "Entre le chagrin et le néant, je choisis le néant. Le chagrin est un compromis."

Com um orçamento reduzido, a imaginação foi estimulada. Com o fotógrafo Raoul Coutard introduzem a filmagem com câmara à mão, os movimentos de câmara substituindo o clássico campo, contracampo. O ritmo, a curta duração de alguns planos, a montagem que tira partido da imperfeição com recorrentes saltos de imagem, os enquadramentos de interiores, foram marcados pela necessidade de poupança. De igual modo o filme é filmado no exterior

Vencedor do Urso de Prata em Berlim, foi um sucesso comercial, feito quase inédito em Godard. Apenas repetido em Sauve qui Peut (La Vie) e Je Vous Salue Marie ( este mais pela polémica que despertou). Cineasta rebelde, Godard nunca fez filmes para agradar ao espectador. O seu Michel no monólogo inicial dá o tom: “si vous n’aimez pas...allez vous faire foutre”, como afirmação da sua indiferença.

Cada vez que revejo este filme (para este post revi-o pela enésima vez) gosto ainda mais dele. É um filme essencial para compreender que havia um antes e passou a haver o depois. Por isso, Je vous salue, Godard.

DVD: "À bout de Souffle" (1959) na amazon.fr €8.40Outros filmes recomendados: "Vivre sa Vie" com Anna Karina, sua mulher, Prémio Especial do Juri em Veneza; "Le Mépris"(1963) com Bardot e Piccoli , na amazon.fr €4.68; "Pierrot le Fou"(1965) com Belmondo e Anna Karina, na amazon.fr €6.00; "Sauve qui peut (la vie)" com Isabelle Hupert; "Prenom Carmen" (1983), Leão de Ouro em Veneza.

Na FNAC apenas encontrei "Sympathy for the Devil"(1968), €17.95, que tem como ponto de partida os Rolling Stones em estúdio a gravar o disco que dá o nome ao filme. O DVD trás a versão do realizador e a do produtor.

terça-feira, agosto 29, 2006

Surfin USA

Nunca foram uma das minhas bandas preferidas. Ouvia as suas músicas sobretudo nas bandas sonoras dos muitos filmes que vi. Talvez por isso façam parte do meu imaginário, e lá se mantenham, passados que são 40 anos do lançamento de "Pet Sounds" para muitos ( Rolling Stone, VH1) um dos melhores albums de sempre.

"Wouldn'It be Nice" traz-me de volta os Amigos de Alex, "Sloop John B" evoca Forrest Gump, "God Only Knows" leva-nos ao encontro de Paul T. Anderson e as "Boogie Nights", "Surfin Safari" transporta-nos até Da Nang e Apocalypse Now.

Na FNAC poderão encontrar o CD, a versão em Mono e irá ser lançado em breve o DVD. Na iTunes podem fazer o download do álbum ou dos hits.

segunda-feira, agosto 28, 2006

Emmys

Foi ontem a cerimónia de entrega dos Emmys, tendo como anfitrião o histriónico Conan O´Brien. Sendo bom não esquecer que há quase uma centena de prémios desde a melhor maquilhagem ou o melhor penteado, os prémios acabam por reflectir o melhor que se faz em TV pelos USA. Como em qualquer selecção haverá sempre os injustamente esquecidos. Dentro destes destaco os CSI (Miami, Las Vegas e New York) apenas nomeados em categorias secundárias.


Os grande vencedores da noite foram "24" com 5 prémios e a mini-série "Elizabeth I" com 9 prémios."24" derrotou séries como "The Sopranos", "Six Feet Under" "Lost" e a inédita entre nós "Big Love" ( Bill Paxton polígamo em Salt Lake) na categoria de melhor série dramática. Kiefer Sutherland como Jack Bauer bateu Peter Krause ( Nate Fischer em "Six feet under") e Dennis Leary ( o Tommy Gavin do interessante "Rescue Me"que passa na SIC ou no AXN) como melhor actor dramático. A melhor actriz foi Mariska Hargitay em "Law and Order-Special Victims Unit", de que nunca ouvi falar.

A melhor série de comédia foi "The Office" mas a comédia mais premiada foi "My name is Earl", sendo os melhores actores de comédia Tony Shalloub por "Monk" e Julia Loise Dreyfus nma outra série inédita por cá. Também premiado o "Daily Show" de Jon Stewart e o impagável Steven Colbert.

"Elizabeth I" dominou as mini-séries com Helen Mirren e Jeremy Irons premiados. O melhor actor foi Donald Sutherland, que posou com o filho. Curiosamente bateu outro pai famoso ( Jon Voight desavindo com Angelina Jolie que ficou na limo à espera que o progenitor abandonasse a sala) que criou um (dizem) magnifico retrato de João Paulo II:

Outras séries premiadas com 4 emmys foram "Roma" de que já falei noutro post, e "Baghdad ER" série documental que mostra o dia a dia do "86th Combat Support Hospital".

quinta-feira, agosto 24, 2006

Pol Roger "Cuvée Winston Churchill"

Winston Churchill dizia do champanhe “ in victory deserve it, in defeat need it”.Amante dos prazeres da vida, Churchill tinha nos brutos vintage da Pol Roger os seus champanhes de eleição.

No 10º aniversário da sua morte, em 1975, a casa Pol Roger criou “Cuvée Winston Churchill”, por muitos considerado o mais sublime dos champagnes. Churchill recomendava que deixássemos o champanhe expressar-se no copo:
“Observe it, listen to it, smell it, and discover its numerous and complex aromas. Then, only then taste it to grasp not only is richness but all is nuances. “

Claro, sir Winston apreciá-lo-ia com um longo charuto, a que também deu o nome, o Churchill. O meu preferido Cohiba Esplendido, que faz justiça ao nome. É fácil de entender porque foi sir Winston tão grande estadista.


O prazer de provar tão precioso néctar vale bem os €120 que custa. Mais acessiveis ao bolso do comum dos mortais são o Pol Roger Brut, o Extra Cuvée Reserve Brut ou o Rosé Vintage, que oscilam entre os €38 e 55. Longe das prateleiras das grandes superficies, dominados pelas víuvas e pelos Dons, encontramos o Pol Roger nas boas garrafeiras. No Porto podem procurá-lo na “Vinho e Coisas” ou na “Tio Pepe”.

quarta-feira, agosto 23, 2006

O Estrangeiro

Obra marcante da literatura francesa , “O Estrangeiro” de Camus foi descoberto por um leitor especial. O Mr. Bush, que no seu rancho, por entre passeios de bicicleta , se envolveu com a singularidade de Meursault e terá até, vejam lá, tido com Tony Snow «une brève conversation sur les origines de l'existentialisme français, Camus et Sartre».

Fez-me recuar ao verão de 78, em que tendo partido uma perna no primeiro dia de férias, me vi preso a uma cama por quatro semanas. Por entre os jogos do Mundial da Argentina, devorei uma série de livros. Um deles foi o que agora fascinou George W.,

O homem de Camus, Mersault, que acaba condenado à morte por ter assassinado preventivamente um árabe, procura a justificação da sua existência e não a encontra, convertendo-se assim num estranho, um estrangeiro para si mesmo. A indiferença, a ausência de ambição ou sentimento criam um distanciamento do personagem, que se coloca à margem, pressentindo o absurdo da falta de sentido que justifique a sua existência.

É certo, George W. Identificou-se com o personagem.

Na FNAC apenas encontrei a v.o. em francês por €3.47

PS: Peço desculpa por na foto Camus ter um cigarro na boca, mas a palhinha do Lucky Luke estava indisponível.

terça-feira, agosto 22, 2006

Orsay

Tendo já visitado alguns museus por esse mundo, o d' Orsay é o meu favorito e ponto de paragem obrigatório em qualquer visita a Paris. Pretexto para revisitar os mestres impressionistas e me deslumbrar com Rodin.











A antiga gare d'Orsay, de grande beleza arquitectónica, contém alguns dos quadros mais marcantes do impressionismo, obras primas como o "Dejeuner sur l'Herbe" de Manet, o "Gare de St. Lazare" de Monet, o "Bal au Moulin de la Gallete" de Renoir, "Lábsinthe" de Degas, ou a "Porte de L'enfer" de Rodin.

Mas na minha primeira visita um quadro se destacou entre todos. Um quadro pequeno no tamanho, tela de 84 por 74cm, grande na força. Lembro-me que estava a olhar para os quadros de Cézanne e a minha atenção foi desviada para um pequeno quadro que se encontrava na sala seguinte. Donde emanava tal magnetismo era de "L'eglise d'Auvers-sur-Oise" de Van Gogh.


Depois da sua estada em Arles e no Hospital Psiquiátrico de Saint-Rémy de Provence, van Gogh veio para Auvers-sur-Oise, perto de Paris acolhido pelo Dr. Gachet. Nos dois meses entre a chegada a Auvers e a sua morte , dois meses depois , pintou setenta telas. Se compararmos a igreja de Van Gogh com as catedrais de Monet, vemos que ele procura as impressões dos jogos de luz sobre o monumento, nem uma imagem fiel da igreja, antes uma forma de expressão.

A imagem de uma igreja geralmente suscita paz, serenidade, contemplação. Mas ao vermos esta igreja o que ressalta é a força, o mistério e a impetuosidade de van Gogh, que nos transmite o conflito que atravessa a sua alma. O azul cobalto da tormenta e os traços fortes e nervosos com que é pintada faz-nos pressentir uma catástrofe que se aproxima.

Para além da admiração que nos suscita este quadro devemos olhá-lo com afecto e respeito, porque se trata do legado de um dos maiores génios da pintura.

sábado, agosto 19, 2006

Leo Ferré

Léo Ferré nasceu a 24 de Agosto de 1916 no Monaco. Com nove anos foi para um colégio de freiras em Bordighera, não se adaptando ao rigor da disciplina das Ecoles Chrétiennes du collège Saint-Charles de Bordighera en Italie. Em 1935 chega a Paris licenciando-se em 39 em Ciências Políticas. Com a guerra regressa ao Monaco, onde trabalha na Radio Monte-Carlo, sendo ao mesmo tempo locutor, produtor e pianista. Começa a compor cantando em cabarets, descobrindo Charles Trenet ( “La Mer”) e Edith Piaf. que o aconselha a regressar a Paris.

Depois da libertação partilha a cabeça de cartaz no cabaret “Boeuf sur le toit” com Aznavour. Paasa por dificuldades económicas, e a sua mulher Odete, não suportando as incertezas de "la Vie d'artiste” divorcia-se em 1950.

É por essa altura que adere aos ideais anarquistas e frequenta a tertulia surrealista do “Les Deux magots” . Escreve a ópera "la Vie d'Artiste", onde se revela o seu grande talento, e a partir da "Chanson du mal-aimé" de Apollinaire compôs nova ópera.


En 1953 chega ao sucesso com a gravação de "Paris Canaille" e em 55 chega ao Olympia, sózinho em palco, ao piano. A sua amizade com André Breton acaba quando este recusa escrever o prefácio do seu livro de poemas por estes romperem com o surrealismo

Em 1961 compõe "les Chansons d'Aragon", musicando 10 poemas de Aragon, clássicos como "L'Affiche Rouge" ou “Elsa.

"Ferré 64" é o disco da maturidade, que revelam a inspiração de um rebelde que se exprime com poesia em "Sans façon", ou "Mon piano", anarquista que não renega a boa vida que o dinheiro lhe trazia.

Em 66, no seu regresso a paris tem um concerto mitico, em que homenageia Rimbaud, novamente sózinho em palco com o seu piano. Apreciador da pop dos Beatles e dos Moody Blues ( “C’est extra”), em 1970 publica o single "Avec le temps", o seu maior êxito, clássico da música francesa. No ano seguinte grava "Solitude”. É o apogeu da sua carreira. Retira-se para a Toscânia com a terceira mulher Marie-Christine, que lhe dá duas filhas.

Morre com 77 anos em 1993. Nome grande da canção e da poesia europeia do séc. XX, autor de excepção, poeta maldito, que com o tempo nunca esqueceremos ao contrário do que diz a sua canção.


"Avec le temps...
avec le temps, va, tout s'en va
on oublie le visage et l'on oublie la voix
le cœur, quand ça bat plus, c'est pas la peine d'aller

chercher plus loin, faut laisser faire et c'est très bien"

Na FNAC: Em saldo "La vie d'Artiste", €3.95 "Paris canaille" €3.95, e diversas colectâneas.
No iTunes: "Avec le temps- Les Chansons d'Amour" e "Leo Ferré chante Aragon", €9.90, ou €0.99 por canção.

sexta-feira, agosto 18, 2006

Cafés de Paris

Em Paris uma das coisas que mais aprecio é sentar-me num café e disfrutar o momento, de preferência em boa companhia, beberricando um café, un demi ou um kirr royal.

E Paris cultiva esse espirito dos cafés, muitos deles carregados de história e estórias. O mais antigo de todos é o Le Café Procope, de cuja tertúlia fizeram parte Rousseau e Voltaire antes de Balzac. Foi debaixo dos seus lustres que Robespierre, Danton et Marat conspiraram.

Alguns deles não chegaram aos dias de hoje como o Café Tortoni ( cujo nome inspirou o de Buenos Aires) ou o Café de Paris ( que inspirou o do Mónaco) ou o Guerbois, onde Manet, manteve um circulo que incluia Monet, Fantin-Latour, Degas, Renoir, Pissaro, Cézanne e Zola e Maupassant, O impressionismo nasceu das discussões nas mesas do Guerbois.

Depois da Guerra, Paris era mesmouma festa. Montparnasse com o “la Coupole” e a “Closerie des Lilas Paris” era ponto de encontro de gente como Cocteau, De Chirico, Man Ray, Joséphine Baker e Picasso ou Hemingway, embora estes fossem mais assíduos em Saint-Germain-des-Prés, na Brasserie Lipp, e sobretudo no Café de Flore e no Les Deux Magots. Com o seu décor clássico marcado pelas estatuetas chinesas o Deux Magots é uma instituição, um ícone de Paris, hoje mais frequentado por turistas que por habitués. Rimbaud, Breton e os surrealistas, Hemingway, Prévert e Gide eram residentes. Berço do cubismo, foi na sua esplanada que Picasso se apaixonou por Dora Maar, na época em que pintava a Guernica. O rival Flore foi o berço do existencialismo, numa tertúlia frequentada por Camus, Sartre e Simone de Beauvoir.

Sem tanta história, mas com todo o charme o Café de la Paix e o Grand Caffé, jóia de Art Deco, localizados bem junto à Ópera são os meus favoritos. Na esplanada do Café de La Paix podemos pasar horas deleitados com a majestosidade da Ópera e a beleza da gente que passa. No Grand Caffé a degustação de ostras é paragem obrigatória.



Claro que quem visita Paris tem de conhecer Orsay, o Pompidou, a Tour Eiffel, o Louvre ( ai o Louvre...), mas quem não se perde no seus cafés, não conhece Paris.

Procope, 13 rue de l'Ancienne Comédie
la Coupole 102, bd du Montparnasse
Closerie des Lilas, 171, Bd du Montparnasse
Les deux Magots, 170 blvd, St Germain,
Café Flore, 172 blvd, St Germain Café de La Paix,12 blvd des Capucines,
Grand Caffé, 4, bd des Capucines

quinta-feira, agosto 17, 2006

Maison de la Truffe

Há cerca de dois anos, num intervalo de muita ciência, seguia com o Manuel pelo Boulevard des Capucines quando demos de caras com a amiga Paula. Sendo horas de almoço disse-nos que um amigo lhe recomendara uns ovos mexidos na Maison de la truffe, ali a dois passos na Place de la Madeleine. O Joaquim, marido da Paula, ficou retido numa mesa redonda pelo que não se deleitou com o que nos foi apresentado numa pequena mesa quadrada.


A Maison de la Truffe é uma loja gourmet especializada em trufas, mas também foie gras, caviar e salmão fumado, que serve refeições. Sala modesta, serviço simpático. Da carta constavam propostas interessantes como salada de feijão verde e salmão fumado ou pezinhos de porco trufados, mas a especialidades são as trufas. Pastas, risottos,saladas, sempre com trufas.




Começamos com uma saborosa Bisque de Crustacés. Mas era aos ovos que íamos, e os ovos provamos. Mal passados, fritos com as trufas em óleo das mesmas, estavam de estalo, em plena harmonia com um Chablis servido ao copo.

Encerramos com “Truffier et sa crème anglaise”, uma delicia sob a forma de chocolate e trufas.

Verdadeiro tesouro quase secreto, recomenda-se esta maison. E já agora, gourmet que se preze, indo à Madeleine não deixa de visitar a Fauchon no 26-30 e a Hediard no 21. Apenas fica a faltar a visita à Petrossian , que pode ser combinada com a visita a Orsay ou Invalides.

Maison de la Truffe, 19, Place de la Madeleine

sexta-feira, agosto 11, 2006

QUARTO DE HOTEL ( 13) Park Hyatt Paris

Já fiquei em Paris em casa dum amigo dum amigo, e em diversos hotéis, de duas a quatro estrelas ( em França não dão 5 estrelas nem aos melhores hotéis).

Mas este Park Hyatt é perfeito. Pelo hotel em si, e pela localização, no coração de Paris, na Rue de la Paix, entre a Ópera e a Place Vendome. A Paris monumental, a dois passos do Louvre e das Lafayette, das Tuilleries e da Concorde, Orsay na outra margem. E os costureiros Faubourg St. Honoré e as jóias da Plave Vendome.

Por trás da fachada clássica de um edificio do séc. XVIII, Ed Tuttle criou um design hotel, onde o espaço balanceado em simetrias, os tectos altos e pátios interiores beneficiam da mescla de materiais clássicos como o mogno e o mármore com a simplicidade e a modernidade do design.


Espalhados pelo Hotel encontramos uma selecção de escultras ou pinturas originais de arte contemporânea, que lhe conferem uma atmosfera quente e acolhedora.


O hotel dispõe de 178 quartos, incluindo 35 suites, concebidos para oferecer máximo de conforto, com o estado da arte em tecnologia, seja nos sistemas da Bang & Olufsen(TV,DVD e CD) ou na internet wireless. O design da casa de banho em open space, com lavatório na cabine de duche ( que bom fazer a barba debaixo do chuveiro), banheira encastrada no mármore, piso aquecido e o "walk in closet" são um espanto.


Em visita de trabalho não tive oportunidade de espreitar o spa que dizem ser excelente. Também só recorri ao restaurante do Hotel para tomar o pequeno almoço, no lounge "Orchidées", local ideal para tomar um Kirr antes de jantar. No "La Terrasse" o pátio é um espaço acolhedor para uma bebida após um cansativo dia de trabalho, de compras ou da visita ao Louvre.


Park Hyatt Paris-Vendome
5 Rue de la Paix
Paris
75002
France
Tel: +33 1 5871 1234
Fax: +33 1 5871 1235

Quarto duplo em APA €540.

DVDteca - Grandes Mestres do Cinema (14)

"Les Quatre Cents Coups" (1959) de François Truffaut


François Truffaut nasceu em 1932 sem nunca ter conhecido o seu pai, sendo o apelido Truffaut herdado do padrasto. Teve uma infancia tumultuosa, da qual escapava para as salas de cinema. A sua paixão pelo cinema levou-o a fundar um cineclube. Como resultado acumulou dividas, problemas com a policia e a ruptura com os pais Anos mais tarde desertou, tendo cumprido prisão na Alemanha.

Nos anos 50 torna-se critico de cinema nos míticos Les Cahiers du cinéma. Um artigo seu "Une certaine tendance du cinéma français", publicado em 1954 precipitou uma revolução na indústria do cinema francês, o que aliado a uma talentosa e inovadora geração de novos realizadores gerou o que ficou conhecido como a “nouvelle vague” . Com Truffaut, Godard, Chabrol, Rohmer.

A sua primeira longa metragem, “Les Quatre Cent Coups” é uma obra genial, em que Truffaut vai colocar em prática tudo o que tinha antes defendido como critico de cinema e defensor de um cinema de autor, como o faz com uma sensibilidade e um tacto espantoso para quem se estreia na realização. Filme claramente autobiográfico, relatando a conturbada adolescência do seu alter ego, Antoine Doinel, personagem que será revisitada ao longo de vinte anos em vários filmes, sempre representado por Jean-Pierre Léaud. A “família feliz” que está longe de ser feliz, com um pai alienado da vida e uma mãe demasiado ambiciosa para a vida que tem, deixa o jovem Doinel quase asfixiado. Ele precisa de ser livre. Também não é na escola que o jovem vai encontrar um espaço onde se adaptar. A escola que aqui vemos é a escola de Jean Vigo em Zero en Conduite,que Truffaut homenageia citando alguns planos do filme de Vigo. É uma escola atrasada, uma escola castradora. Truffaut vinga-se aqui claramente dos dias mais difíceis da sua infância, e ao trazer Doinel para as ruas, para os espaços abertos – longe do cubículo que é a sua casa e da lúgubre escola – dá também uma força e vitalidade ao filme, que ajuda e muito a desenvolver a tenção dramática. É pois um filme que abala por completo duas grandes instituições da sociedade francesa,a família e a escola.

O cinema, sempre o cinema, marca também a sua presença, como local de escape, como local onde o sonho e as primeiras paixões são ainda inocentes e belas, uma verdadeira poesia visual. Para isso usa uma série de travellings, de planos picados e contra-picados, e experimenta também o uso da câmara em movimento, fundamental para dar maior dinâmica à narrativa.

O abandono, o desencanto, a desilusão, o desenquadramento, são as marcas dominantes da primeira metade do filme. Ao contrário dos minutos finais, onde a esperança, a liberdade e o futuro dão uma reviravolta total ao filme. Um piscar de olhos ao cinema da época talvez, com um Truffaut critico ao sistema – educacional, mas que também podia ser o sistema da indústria cinematográfica – e só o cinema nos permite estas comparações – e um desencanto com a família, talvez aqueles de quem Truffaut esperaria mais. Mas, num rasgo de génio, Les Quatrecents Coups é mais sobre a esperança e sobre o futuro do que propriamente sobre o passado.

Num dos mais brilhantes planos finais da história do cinema, Truffaut deixa a porta aberta para o que se seguiria. Num piscar de olhos ao próprio movimento a que dá inicio, o realizador não fecha Les Quatrecents Coups, antes o deixa em aberto, para mostrar que este era só o primeiro passo. O resto estava para vir. E o resto, era a Nouvelle Vague.

Apesar do pequeno orçamento, Les Quatre Cents Coups valeu a Truffaut o prémio de melhor realizador em Cannes em 1959, outorgando-lhe o estatuto de autor. A sua obra é notável e seria exaustivo citar todos os seus grandes filmes. Recordo “Jules et Jim” (62) por muitos considerado o filme maior na obra de Truffaut, triângulo amoroso com uma espantosa Jeanne Moreau. Comédias como “Baisers volés” (68) ou “Une belle fille comme moi”(72). Thrillers como “La Mariée était en noir” , “La Siréne du Mississipi” (69) ou “La Femme d’à côté” (81), que lançou Fanny Ardant.. A notável “La Nuit Americaine” (73), filme dentro do filme, que lhe valeu o Óscar de melhor filme estrangeiro. O confessional “L’Homme qui aimait les femmes” (77), que evoca a complexa vida amorosa do realizador. O último Doinel, “L’amour em Fuite” (79) ou “Le dernier Métro” (80), uma vez mais com uma das suas paixões, Catherine Deneuve.

Truffaut foi também actor, participando em alguns dos seus filmes, destacando-se em “L’Enfant Sauvage” (70) e “La Nuit Américaine” (73). Spielberg que nutria grand admiração por Truffaut cahmou-o para participar em “Encontros Imediatos do 3º grau”(77).

Após ter realizado “Vivement dimanche!” (83) foi-lhe diagnosticado um tumor cerebral em 1983 falecendo no ano seguinte.

A obra de Truffaut e leva-nos do thriller à comédia romântica , do romance à ficção cientifica, da adolescência ao drama e ao filme de época. O fio comum que unifica esta diversidade conferindo ao todo coerência , é o profundo humanismo e o conteúdo autobiográfico dos seus filmes.

DVD: "Os Quatrocentos Golpes", na FNAC, €24,50
Também recomendo "Jules e Jim, na FNAC, €24,50, eos Packs Truffaut 1 (Amor em Fuga + Domicílio Conjugal + Beijos Roubados + Os Quatrocentos Golpes + Antoine e Colete Os putos) e 2 (Disparem sobre o Pianista + Angústia + A mulher do Lado + Finalmente Domingo!), cada um com 4 filmes do autor francês, com 4 filmes cada por €65.

PS: Uma nota para quem vir o filme e não perceber o título.A tradução para português de Les Quatre Cents Coups trinta por uma linha. Na altura um ilustre tradutor chamou-lhe os quatrocentos golpes e assim ficou.

Back to the Future

Depois de umas curtas férias e um crash informático, estou de volta. Depois de um passeio pelo país dos campeões do Mundo, onde tanto ficou por dizer, de Puccini a Bertolucci, de Pratt ao Hotel Splendido em Portofino, falarei dos vice-campeões, a França. Terra de grandes cabeças. Como Rousseau, Voltaire e Zidane.