quarta-feira, outubro 04, 2006

Alguns dias em Cork


No início de Setembro, e por solicitação da minha cara-metade, promovi uma deslocação familiar à cidade de Cork, à boleia de um congresso internacional de ecologia marinha. Contando com a minha catraiada (3), e com os meus cunhados e sobrinhos que também se quiseram associar a esta expedição, formamos um grupo de nove pessoas, o que obrigou a algum esforço prévio de planeamento logísitico-financeiro. As reservas de viagem pela Ryanair, bem como a escolha de alojamento, feita através da Internet, permitiram até certo ponto alguma “contenção orçamental”.

Cork, para quem não saiba, fica no sudoeste da Irlanda, sendo a segunda cidade mais populosa daquele país (120.000 habitantes) e uma das mais características, não tanto pelos seus monumentos mas principalmente pela sua história e pelo seu “espírito”. Chegamos ao aeroporto de Cork no início da manhã, provenientes de Londres, e tivemos a “agradável” surpresa de apanhar uma greve de táxis, o que nos levou a recorrer ao serviço de autocarros para nos levar até ao centro da cidade, viagem que demorou cerca de quinze minutos. O tempo, como é habitual por estas bandas, estava cinzento e a nossa primeira impressão não foi das melhores. Ficamos hospedados na Garnish House, estabelecimento de “bed & breakfast” altamente recomendável pela simpatia dos proprietários e pela “categoria” dos pequenos(???!)-almoços, situado na Western Road, artéria localizada próximo da Universidade local, e onde esta forma de alojamento se encontra quase porta sim porta não, embora com diversos cambiantes de qualidade.

Cork é mais ou menos do tamanho de Coimbra, sendo banhada pelo rio Lee, em cujo vale se espraia grande parte do aglomerado urbano, que inclui também algumas colinas na margem norte. A cidade de Cork foi fundada no século VII por S. Finbarre, tendo origem numa pequena comunidade monástica edificada sobre algumas ilhas fluviais. Mais tarde foi assediada pelos Vikings, conquistada pelos Normandos, e no século XIV perdeu um terço da sua população devido à peste negra. Posteriormente, durante a Reforma e Contra-Reforma, assistiu a lutas pelo poder espiritual e temporal, entre anglicanos e católicos, que se prolongaram até finais do século XVII. A partir de 1700, e correspondendo a um período de maior estabilidade política, vive um surto de desenvolvimento económico-social, de comércio florescente baseado no seu porto e na indústria têxtil (lã e linho), com aumento populacional assinalável. Data dessa altura a fundação da cervejaria Beamish, que ainda hoje continua a ser um dos principais empregadores da cidade. É também então que se procede ao assoreamento dos vários canais que separavam as ilhas em que assenta a cidade, transformados em ruas da zona central. Em 1798, tem lugar uma importante revolta contra o domínio inglês, duramente reprimida e cujas vítimas são homenageadas no chamado Monumento da Grand Parade. Durante o século XIX, a indústria têxtil de Cork entra em declínio acentuado devido à concorrência inglesa, assumindo relevo especial as actividades relacionadas com a produção de bebidas alcoólicas e com a produção de manteiga e mantendo-se o estatuto de principal porto da Irlanda. Entre 1844 e 1848 tem lugar a “Grande Fome”, em que, devido a uma sucessão de colheitas de batata desastrosas, e ao aparecimento concomitante de epidemias de cólera e tifo, milhões de irlandeses são afectados, muitos morrendo por desnutrição nas cidades e nos campos e dando origem a uma emigração em massa para os Estados Unidos, Canadá e Austrália. A situação apenas se recompõe na segunda metade desse século, sendo então criadas muitas das actuais infra-estruturas da cidade, como os caminhos de ferro, os serviços de água e electricidade, e também a sua Universidade. Em 1905, a cidade é palco de uma grande exposição internacional, tendo sofrido diversos melhoramentos. Durante a Guerra da Independência da Irlanda, Cork foi um dos principais centros dos conflitos, na sequência dos quais, e no mesmo ano de 1920, dois dos seus “Mayors” pereceram, um assassinado por apoiantes da união com o Reino Unido e outro em greve de fome após ter sido condenado a prisão por estar ligado ao IRA. Ainda nesse fatídico ano, e como revanche pelo apoio da cidade à causa independentista, o centro urbano foi incendiado pelos unionistas, tendo ardido a Câmara Municipal, a Biblioteca e vários edifícios comerciais em St. Patrick Street. Posteriormente, durante a Guerra Civil entre as forças do IRA e do novo estado irlandês, a cidade esteve sob o domínio rebelde, sendo libertada em Agosto de 1922. Apesar de sofrer novos surtos emigratórios, após a Segunda Guerra Mundial e nos anos 70 e 80 (quando muitas empresas não conseguiram competir no mercado alargado da então CEE), o fim do século XX assistiu a um novo surto de prosperidade e bem-estar social, ligados à instalação de indústrias da nova tecnologias, que permitiram que, em 2005, Cork fosse nomeada Capital Cultural da Europa.

Cork não é decididamente uma cidade monumental, sendo que a sua principal atracção arquitectónica é a Catedral de St. Finbarr, construída em meados do século XIX, em estilo neo-gótico, no preciso local da antiga comunidade monástica que lhe deu origem. A cidade é óptima para passear sem pressas, admirando as fachadas georgianas dos seus edifícios, com as suas portas coloridas; para beber uma cerveja num dos seus inúmeros pubs, todos com o seu balcão de madeira e uma autenticidade que não se encontra, por exemplo, no afamado Temple Bar de Dublin. Os habitantes são simpáticos e hospitaleiros, não se importando de dar informações aos turistas. A cidade possui muitos espaços verdes e não se vêem arranha-céus nem engarrafamentos. St. Patrick Street é a principal rua comercial, e nas suas transversais situam-se pubs e restaurantes para todos os gostos. Infelizmente, a gastronomia local não é muito apelativa, embora existam estabelecimentos de renome, como o Jacobs on the Mall (na South Mall Street), citado no Guia Michelin, que todavia não pude conhecer. O remédio é recorrer aos restaurantes argentinos, gregos ou italianos (aqui recomendo o Milano, na Oliver Plunkett Street). Não há restaurantes brasileiros, embora tenha encontrado uma troupe de capoeira exercitando-se ao som do berimbau. Curiosamente existe um restaurante português, com o inspirado nome de Arco-Irish (em Washington Street), mas o seu aspecto interior não era dos mais convidativos, pelo que não foi contemplado com a nossa visita. O que se perde em comida pode ser facilmente recuperado na bebida, sendo a cidade um paraíso para os amantes dos maltes fermentados. Pessoalmente, e porque uma viagem não pode ser apenas diversão, decidi proceder a uma aturada investigação sobre qual a melhor cerveja stout, tendo concluído, após experimentar a Murphy’s, a Beamish e a Kilkenny, que a Guinness é mesmo a melhor, com a sua espuma cremosa e o travo final a café.

Ainda em Cork, uma visita interessante é à prisão local (City Gaol), actualmente desactivada e onde, com recurso a estátuas em cera e equipamento áudio, se pode ter uma ideia vívida do que era o dia-a-dia numa cadeia irlandesa do século XIX (não era muito agradável…). Também merece uma deslocação o Museu da Manteiga (Butter Museum), onde nos podemos aperceber da importância que a indústria de lacticínios teve, e ainda tem, para Cork e para a Irlanda. A Universidade com o seu campus oitocentista em meio de cuidados jardins é outro ponto a ter em conta.

Fora da cidade, optámos por conhecer algumas das atracções recomendadas nos guias. Como levávamos crianças, começamos por uma visita ao Fota Wildpark, um safari parque facilmente acessível por comboio (tem a sua própria estação), onde os animais se passeiam em liberdade (ou semi-liberdade para alguns, como as cheetas, os bisontes, as zebras e as girafas). Aí foi possível confraternizar, entre outros, com simpáticos lémures e atilados lhamas. O pior foi quando quisemos regressar: acreditem ou não, os ferroviários tinham entrado em greve e tivemos que voltar de táxi!
Visitámos também a pequena e pitoresca cidade piscatória de Kinsale, a cerca de 15 km de Cork, com as suas pequenas ruelas cheias de fachadas coloridas de castiços pubs (recomendam-se o Mother Hubbard’s, o Jim Edwards e o White House). Ao largo de Kinsale teve lugar uma célebre batalha naval em que as forças do rei Jaime I, católico, apoiadas por uma frota espanhola forma derrotadas pelas forças anglicanas. Durante a II Guerra Mundial, foi também próximo das suas costas que foi afundado o navio Lusitânia.

O Castelo de Blarney fica a norte de Cork, em meio a esplêndidos jardins, com relvados intermináveis, um límpido riacho e árvores seculares, onde, num dia ensolarado, passámos uma agradável tarde. O Castelo em si é imponente com uma torre altíssima (pelo menos para mim que tenho vertigens), de onde se avistam quilómetros em redor. Uma lenda local diz que todo aquele que debruçado no alto da torre beijar uma determinada pedra das suas ameias (The Blarney Stone) será recompensado com o dom da eloquência, pelo que turistas anónimos e VIPs diversos, incluindo alguns presidentes americanos (embora não seguramente o George Bush filho) se sujeitam a estar, seguros pela pernas, debruçados a dezenas de metros de altura para beijar a pedra e alcançar essa benesse. Sabiamente decidi que já tinha eloquência que chegasse e prescindi desse ritual…

Embora não tivesse visitado a cidade portuária de Cobh, ela é recomendada pelo seu ambiente e pelos restaurantes e bares do seu porto. Foi o ponto de partida para milhões de emigrantes irlandeses que se dirigiram para o Novo Mundo e foi também aí que o malogrado Titanic fez a sua última escala antes do encontro com o icebergue.

sexta-feira, setembro 08, 2006

London Calling

Esta manhã voo de novo com a Ryanair, destino Londres. Não, não vou ver os Clash, como o título invoca, vou ter um programa apertado de reuniões. Mas vou ter uma aberta para visitar algumas catedrais londrinas.


St Pauls? Não. Westminter? Nãa.







Graças à simpatia do André, que através do Luís disponibilizou os convites para a malta vou a Stamford Bridge. Ver o Chelsea - Charlton. Pena que o Luís não possa ir. Ele era o nosso especialista em fotos com as girls. Já o imaginava a posar com Mrs. Shevchenko e a dar aquele abraço ao Roman.




Outra catedral a visitar é a que tem como pastor Gordon Ramsay. Considerado o Special One das cozinhas do reino de sua Majestade. Espero ainda conseguir espreitar a Tate Modern, que ainda nao conheco, e tem uma exposicao fabulosa de Kandinsky.Disso darei conta na volta do correio.

quinta-feira, setembro 07, 2006

TABLES DU MONDE (11) RAMPOLDI

Sendo um conhecedor profundo do principado pedi ao Andrea que me recomendasse um restaurante em Monte Carlo. Falou-me no Rampoldi, italiano como ele gosta. Fica na Av. Splugues que todos os aficionados da F1 conhecem pois antecede a fabulosa curva do Hotel Fairmont (antes Loews).


Numa visita anterior ao Mónaco, na pequena esplanada do restaurante jantava lá um senhor de bigode. Eu e o Rui tivemos de ir às profundezas da memória para identificar o bigode na face rosada. Era o Keke Rosberg.

Desta vez não estava lá nenhum famoso, mas o Rampoldi não defraudou as expectativas. Nas entradas o foie gras des Landes e a sopa de peixe mereceram os maiores encómios. O risotto de fruti di mare, de estalo, bem como o carré d'agneau ou a piccata.


Depois de muita divagação pela arte contemporânea e pela escultura chinesa, de que o Rui e o Manuel são profundos conhecedores, uma tarte tatin e frutos do bosque encerraram com eloquência tão aprazivel jantar.

Por isso repito com o Andrea. se fores ao Mónaco, não deixes de jantar no Rampoldi. E se gostares mesmo de cozinha italiana podes almoçar no La Pulcinella, que tem uma bela pasta, muitas fotos de celebridades, e é barato.

Rampoldi
3, avenue des Spélugues
98000 - Monaco
Tél:93 30 70 65
Preço médio de refeição:€60.

quarta-feira, setembro 06, 2006

QUARTO DE HOTEL ( 14) Hotel Hermitage

Em Fevereiro desloquei-me ao Mónaco para uma fatigante reunião cientifica. A viagem foi para esquecer. Com escala num terminal de Barajas estreado na véspera, o avião ficou em terra. Consegui lugar num voo nocturno, os meus companheiros de viagem nem isso, pelo que regressaram ao Porto. Coisas da Iberia.

Felizmente, depois de tão cansativa jornada por mim esperava uma confortável cama com lençóis de linho no Hotel Hermitage. Este histórico palácio Belle Epoque, construido em 1900, com vistas para o Porto d'Hercule, fica a dois passos do Casino.




O meu quarto era o mais simples, decoração clássica, com todo o conforto necessário. DVD, internet, closet, roupão e chinelos ( os russos é que sabem), 35m2, vista jardim. Quem pretender fruir das panorâmicas varandas sobre o Mediterrâneo terá de se preparar para dobrar o preço. Para magnatas do petróleo árabes e russos, ou estrelas de Hollywood as suites com jacuzzi no terraço, ou os exclusivos "Les Appartements" com 180m2 satisfazem todas as excentricidades.




O pequeno almoço tomei-o na Salle Belle Époque, com os seus frescos, as suas colunas de mármore rosa, candeeiros de cristal e jardim de inverno em aço e vidro desenhado por Gustave Eiffel. Nas mesas ao lado p meu olhar cruzava-se com distintos homens de negócios impecáveis nos seus Armanis, esbeltas top-models com os seus Cavalli e russos em roupão e chinelos.

À chegada ao Hotel deram-me uma Carte D'Or. Não, não era de morango. Era um cartão dourado que me dava acesso ao casino e às celebradas Thermes Marins de Monte Carlo, que muitos consideram o mais belo spa da Europa. Não conhecem, claro, o do Brenner Park em Baden-Baden. A piscina coberta é excelente, de água salgada, e o turco de dimensões" "olímpicas e ambiente romano. Pena que lá não estivessem as top-models. Nem mesmo as namoradinhas dos russos.


Jantei no restaurante do hotel, o Vistamar, com o Rui e o Manuel e respectivas esposas. Famoso pelos pratos de peixe, agradou sem entusiasmar. Em anterior visita com o Joaquim, celebrando o nascimento da Margarida, os risottos do chef Joel Garault deixaram melhores recordações.



Este Hermitage está à altura da aura de prestigio que o rodeia, com o glamour das grandes damas.

Hotel Hermitage, Square Beaumarchais, Monte Carlo, 98000 Monaco
Tel: (+377) 9806-4000
Quartos desde 250€.



sexta-feira, setembro 01, 2006

Emigrante ucraniana em Portugal

Sonia Delaunay, nasceu em Odessa em 1885. Em Paris juntou-se a Chagall, Picaso, Matisse, no movimento de refundação da pintura que se seguiu à era pós-impressionista. Aí chegada 1905, casou por conveniência com Wilhelm Uhde, coleccionador de arte, homossexual. Casa depois com Robert Delaunay em 1910, com ele desenvolvendo o Orfismo, versão lirica do Cubismo. A 1ª guerra, em 1915 traz, a convite do amigo Amadeo, o jovem casal a Portugal, a Vila do Conde (referida como aldeia piscatória nos biopics da pintora). Por lá ficou 2 anos, numa casa da Av. Bento Freitas. Sonia recorda nas suas memórias que o tempo que passou em Portugal foi o período mais feliz da sua vida. A luz, as cores intensas, e a simplicidade da vida rural do Entre Douro e Minho iluminaram a sua obra, reconstrução da forma pela saturação cromática e os ritmos. Cabazes, legumes, xailes. Composições vibrantes, de dinâmica centrifuga.

Nos anos 20 dotou o seu vanguardismo de um sentido comercial. Trouxe a arte para a vida quotidiana, no seu atelier de design de tecidos. Criou cenários para os bailados de Diaghilev. Desenhou roupas e chapéus. Frequentou as tertúlias surrealistas de Breton e Rimbaud. Nos anos 30 voltou à pintura juntando-se a um grupo que incluia Kandinsky e Mondrian, e que daria origem ao Abstraccionismo.

Em 63 doou cercade 100 quadros ao Museu de Arte Moderna de Paris, e tornou-se a primeira mulher a expor em vida no Louvre. Habituado a passar na casa onde antes habitara uma pintora que na adolescência eu pensara só conhecida pelos vilacondenses, foi com orgulho que descobri que no Centro Pompidou há uma sala exclusivamente devotada à arte deste casal ligado a Portugal e a Vila do Conde. Sonia Delaunay é um nome grande da pintura do séc. XX, presente nas colecções dos grandes museus, do MoMA em New York ( com "Mercado no Minho) ao Thyssen, em Madrid (com "Portuguesa)..

A última grande exposição de Sonia Portugal decorreu no Soares dos Reis em 2001. O grande acervo que deixou em Portugal torna possível encontrar ( e comprar) quadros seus em diversas galerias.


quarta-feira, agosto 30, 2006

Os LP's do meu baú (3) ""Blasé"

Os posts são como as cerejas. Ao fazer o texto sobre Godard recordei um álbum que não ouvia há muito. "Blasé" de Archie Shepp. Gravado em 1969, em Paris, no seu "exilio" europeu .

Blasé é um momento de escuridão. Um blues, mas um blues ancestral, visceral. "My Angel" abre com o blues e as harmónicas, mas o disco é logo tomado pela voz rouca do saxofone de Shepp e das cordas vocais de Jeanne Lee. "Blasé" é uma lágrima, uma ferida aberta. As notas do piano colam-se às palavras, e logo se estilhaçam. E o saxofone de Shepp canta o pesar sobre um passado sem retorno e olha orgulhosamente o futuro.

"Blasé" é um dos melhores albums de Archie Shepp, nome grande do jazz, companheiro de Cecil taylor, John Coltrane, Chet Baker, Ornette Coleman, entre tantos imortais. Para os menos "jazz addicts" recomendo que comecem por ouvir o fabuloso e mais melódico "Trouble in Mind" e se gostarem avancem para "Blasé".

Blasé (1969): Archie Shepp (sax tenor e soprano), Jeanne lee (voz), Chicago Beau et Julio Finn (harmonica), Dave Burell (piano), Philly Joe Jones (bateria) Malachi Favors (contrabaixo) et Lester Bowie (trompete), os dois últimos do Art Ensemble of Chicago.

CD: Na FNAC €17.50 (mas está esgotado), na amazon.uk €15.00
LP: o meu comprei-o na Tubitek, em 1981-2;no eBay encontra-se por €10.00
mp3: no iTunes €9.99

DVDteca - Grandes Mestres do Cinema (15)


"Á Bout de Souffle" de Jean Luc Godard

O final dos anos 50 foi marcante no cinema francês, pelo lançamento de três filmes que marcaram a “Nouvelle Vague”. “Les 400 coups” de Truffaut, “Le Beau Serge” de Chabrol e “A Bout de Souffle” de Jean Luc Godard. Esses filmes a preto e branco mudaram a face do cinema e influenciaram inúmeros jovens que hoje são grandes realizadores como Spielberg ou Scorcese.

“A Bout de Souffle”, realizado por Godard sobre uma ideia original de Truffaut e contando com a supervisão de Chabrol é , quase 50 anos passados o filme emblemático da “Nouvelle Vague”, sendo que essa vaga segue o seu rumo, forte, mantendo o filme todo o seu brilho, como é próprio de qualquer jóia preciosa.

Marcado por um par electrisante, como o cinema por vezes nos oferece. Já falamos de Bogart e Bacall em “The Big Sleep”. Aqui temos um Belmondo beata no canto da boca, chapéu à Bogart de esguelha, o seu ar trocista, estilo blasé, o beiço caído, as caretas, o dedo que passa sobre os lábios ( como Bogart uma vez mais). E a jovem americana Jean Seberg, na frescura dos seus vinte anos, cabelo curto, t-shirt justa (" Pourquoi ne portes-tu jamais de soutien-gorge ?" pergunta-lhe Michel) calças à pirata ou vestido pelissado às riscas. O malandro e a sereia. Únicos.

No seu primeiro filme, Godard queria fazer um filme negro, à americana. Faz citações, recria cenas, repete bandas sonoras, mostra cartazes, como cinéfilo que era. E todavia... tudo reinventou, criando um novo género: o “Godard”. Ousado, provocador, filma como respira, diverte-se divertindo ( como na cena em que o protagonista recusa comprar os Cahiers du Cinema) , de ruptura em ruptura, persegue o fugaz, o efémero, o real. A liberdade e a irreverência. E o final por si só dá-lhe o estatuto de filme de culto.

O filme conta a história de Michel (Belmondo) que rouba um carro em Marselha e ruma a Paris, matando um polícia no trajecto. Encontra Patricia (Seberg) aspirante a jornalista que vende o Herald Tribune nos Champs-Elysées. O romance é intenso, mas Patricia descobre que Michel é procurado pela polícia. Amor impossível, então. À beira do abismo. "Entre le chagrin et le néant, je choisis le néant. Le chagrin est un compromis."

Com um orçamento reduzido, a imaginação foi estimulada. Com o fotógrafo Raoul Coutard introduzem a filmagem com câmara à mão, os movimentos de câmara substituindo o clássico campo, contracampo. O ritmo, a curta duração de alguns planos, a montagem que tira partido da imperfeição com recorrentes saltos de imagem, os enquadramentos de interiores, foram marcados pela necessidade de poupança. De igual modo o filme é filmado no exterior

Vencedor do Urso de Prata em Berlim, foi um sucesso comercial, feito quase inédito em Godard. Apenas repetido em Sauve qui Peut (La Vie) e Je Vous Salue Marie ( este mais pela polémica que despertou). Cineasta rebelde, Godard nunca fez filmes para agradar ao espectador. O seu Michel no monólogo inicial dá o tom: “si vous n’aimez pas...allez vous faire foutre”, como afirmação da sua indiferença.

Cada vez que revejo este filme (para este post revi-o pela enésima vez) gosto ainda mais dele. É um filme essencial para compreender que havia um antes e passou a haver o depois. Por isso, Je vous salue, Godard.

DVD: "À bout de Souffle" (1959) na amazon.fr €8.40Outros filmes recomendados: "Vivre sa Vie" com Anna Karina, sua mulher, Prémio Especial do Juri em Veneza; "Le Mépris"(1963) com Bardot e Piccoli , na amazon.fr €4.68; "Pierrot le Fou"(1965) com Belmondo e Anna Karina, na amazon.fr €6.00; "Sauve qui peut (la vie)" com Isabelle Hupert; "Prenom Carmen" (1983), Leão de Ouro em Veneza.

Na FNAC apenas encontrei "Sympathy for the Devil"(1968), €17.95, que tem como ponto de partida os Rolling Stones em estúdio a gravar o disco que dá o nome ao filme. O DVD trás a versão do realizador e a do produtor.

terça-feira, agosto 29, 2006

Surfin USA

Nunca foram uma das minhas bandas preferidas. Ouvia as suas músicas sobretudo nas bandas sonoras dos muitos filmes que vi. Talvez por isso façam parte do meu imaginário, e lá se mantenham, passados que são 40 anos do lançamento de "Pet Sounds" para muitos ( Rolling Stone, VH1) um dos melhores albums de sempre.

"Wouldn'It be Nice" traz-me de volta os Amigos de Alex, "Sloop John B" evoca Forrest Gump, "God Only Knows" leva-nos ao encontro de Paul T. Anderson e as "Boogie Nights", "Surfin Safari" transporta-nos até Da Nang e Apocalypse Now.

Na FNAC poderão encontrar o CD, a versão em Mono e irá ser lançado em breve o DVD. Na iTunes podem fazer o download do álbum ou dos hits.

segunda-feira, agosto 28, 2006

Emmys

Foi ontem a cerimónia de entrega dos Emmys, tendo como anfitrião o histriónico Conan O´Brien. Sendo bom não esquecer que há quase uma centena de prémios desde a melhor maquilhagem ou o melhor penteado, os prémios acabam por reflectir o melhor que se faz em TV pelos USA. Como em qualquer selecção haverá sempre os injustamente esquecidos. Dentro destes destaco os CSI (Miami, Las Vegas e New York) apenas nomeados em categorias secundárias.


Os grande vencedores da noite foram "24" com 5 prémios e a mini-série "Elizabeth I" com 9 prémios."24" derrotou séries como "The Sopranos", "Six Feet Under" "Lost" e a inédita entre nós "Big Love" ( Bill Paxton polígamo em Salt Lake) na categoria de melhor série dramática. Kiefer Sutherland como Jack Bauer bateu Peter Krause ( Nate Fischer em "Six feet under") e Dennis Leary ( o Tommy Gavin do interessante "Rescue Me"que passa na SIC ou no AXN) como melhor actor dramático. A melhor actriz foi Mariska Hargitay em "Law and Order-Special Victims Unit", de que nunca ouvi falar.

A melhor série de comédia foi "The Office" mas a comédia mais premiada foi "My name is Earl", sendo os melhores actores de comédia Tony Shalloub por "Monk" e Julia Loise Dreyfus nma outra série inédita por cá. Também premiado o "Daily Show" de Jon Stewart e o impagável Steven Colbert.

"Elizabeth I" dominou as mini-séries com Helen Mirren e Jeremy Irons premiados. O melhor actor foi Donald Sutherland, que posou com o filho. Curiosamente bateu outro pai famoso ( Jon Voight desavindo com Angelina Jolie que ficou na limo à espera que o progenitor abandonasse a sala) que criou um (dizem) magnifico retrato de João Paulo II:

Outras séries premiadas com 4 emmys foram "Roma" de que já falei noutro post, e "Baghdad ER" série documental que mostra o dia a dia do "86th Combat Support Hospital".

quinta-feira, agosto 24, 2006

Pol Roger "Cuvée Winston Churchill"

Winston Churchill dizia do champanhe “ in victory deserve it, in defeat need it”.Amante dos prazeres da vida, Churchill tinha nos brutos vintage da Pol Roger os seus champanhes de eleição.

No 10º aniversário da sua morte, em 1975, a casa Pol Roger criou “Cuvée Winston Churchill”, por muitos considerado o mais sublime dos champagnes. Churchill recomendava que deixássemos o champanhe expressar-se no copo:
“Observe it, listen to it, smell it, and discover its numerous and complex aromas. Then, only then taste it to grasp not only is richness but all is nuances. “

Claro, sir Winston apreciá-lo-ia com um longo charuto, a que também deu o nome, o Churchill. O meu preferido Cohiba Esplendido, que faz justiça ao nome. É fácil de entender porque foi sir Winston tão grande estadista.


O prazer de provar tão precioso néctar vale bem os €120 que custa. Mais acessiveis ao bolso do comum dos mortais são o Pol Roger Brut, o Extra Cuvée Reserve Brut ou o Rosé Vintage, que oscilam entre os €38 e 55. Longe das prateleiras das grandes superficies, dominados pelas víuvas e pelos Dons, encontramos o Pol Roger nas boas garrafeiras. No Porto podem procurá-lo na “Vinho e Coisas” ou na “Tio Pepe”.

quarta-feira, agosto 23, 2006

O Estrangeiro

Obra marcante da literatura francesa , “O Estrangeiro” de Camus foi descoberto por um leitor especial. O Mr. Bush, que no seu rancho, por entre passeios de bicicleta , se envolveu com a singularidade de Meursault e terá até, vejam lá, tido com Tony Snow «une brève conversation sur les origines de l'existentialisme français, Camus et Sartre».

Fez-me recuar ao verão de 78, em que tendo partido uma perna no primeiro dia de férias, me vi preso a uma cama por quatro semanas. Por entre os jogos do Mundial da Argentina, devorei uma série de livros. Um deles foi o que agora fascinou George W.,

O homem de Camus, Mersault, que acaba condenado à morte por ter assassinado preventivamente um árabe, procura a justificação da sua existência e não a encontra, convertendo-se assim num estranho, um estrangeiro para si mesmo. A indiferença, a ausência de ambição ou sentimento criam um distanciamento do personagem, que se coloca à margem, pressentindo o absurdo da falta de sentido que justifique a sua existência.

É certo, George W. Identificou-se com o personagem.

Na FNAC apenas encontrei a v.o. em francês por €3.47

PS: Peço desculpa por na foto Camus ter um cigarro na boca, mas a palhinha do Lucky Luke estava indisponível.

terça-feira, agosto 22, 2006

Orsay

Tendo já visitado alguns museus por esse mundo, o d' Orsay é o meu favorito e ponto de paragem obrigatório em qualquer visita a Paris. Pretexto para revisitar os mestres impressionistas e me deslumbrar com Rodin.











A antiga gare d'Orsay, de grande beleza arquitectónica, contém alguns dos quadros mais marcantes do impressionismo, obras primas como o "Dejeuner sur l'Herbe" de Manet, o "Gare de St. Lazare" de Monet, o "Bal au Moulin de la Gallete" de Renoir, "Lábsinthe" de Degas, ou a "Porte de L'enfer" de Rodin.

Mas na minha primeira visita um quadro se destacou entre todos. Um quadro pequeno no tamanho, tela de 84 por 74cm, grande na força. Lembro-me que estava a olhar para os quadros de Cézanne e a minha atenção foi desviada para um pequeno quadro que se encontrava na sala seguinte. Donde emanava tal magnetismo era de "L'eglise d'Auvers-sur-Oise" de Van Gogh.


Depois da sua estada em Arles e no Hospital Psiquiátrico de Saint-Rémy de Provence, van Gogh veio para Auvers-sur-Oise, perto de Paris acolhido pelo Dr. Gachet. Nos dois meses entre a chegada a Auvers e a sua morte , dois meses depois , pintou setenta telas. Se compararmos a igreja de Van Gogh com as catedrais de Monet, vemos que ele procura as impressões dos jogos de luz sobre o monumento, nem uma imagem fiel da igreja, antes uma forma de expressão.

A imagem de uma igreja geralmente suscita paz, serenidade, contemplação. Mas ao vermos esta igreja o que ressalta é a força, o mistério e a impetuosidade de van Gogh, que nos transmite o conflito que atravessa a sua alma. O azul cobalto da tormenta e os traços fortes e nervosos com que é pintada faz-nos pressentir uma catástrofe que se aproxima.

Para além da admiração que nos suscita este quadro devemos olhá-lo com afecto e respeito, porque se trata do legado de um dos maiores génios da pintura.